Onze e quarenta e sete da manhã. A reunião acabou de terminar. O cliente saiu com diagnóstico claro, prazo estimado, custo de honorário base e lista de coleta documental dirigida. Durou quarenta e sete minutos. Os primeiros cinco fizeram quase todo o trabalho.
Esse é o ritmo da advocacia de Família quando a primeira reunião é conduzida por método, e não por hábito. A operação cognitiva que faz isso possível tem nome neste escritório: triagem em cinco minutos. São cinco perguntas, em sequência fixa, conduzidas nos primeiros minutos do encontro. Cada uma filtra por uma dimensão diferente. As cinco juntas, combinadas, produzem o diagnóstico de viabilidade do caso.
A ordem não é casual. Reflete hierarquia de filtro: a primeira filtra mais, a quinta menos. Mudar a ordem reduz a eficácia. O que segue é a versão didática do método, destilado em mais de uma década de prática.
Pergunta 1. O que você está buscando exatamente?
A pergunta é deliberadamente aberta. O cliente entra na sala em estresse, com história longa, e geralmente começa pelo contexto: como foi o casamento, o que aconteceu na separação, o que o irmão disse no enterro. A função desta pergunta é forçar a saída do contexto para o objeto. O que você quer, concretamente?
Quatro perfis de resposta aparecem com frequência. "Quero me divorciar" indica objeto claro, caso clínico. "Quero entender meus direitos" indica cliente ambíguo, ainda não sabe o que quer, vai precisar de orientação antes do contrato. "Quero saber se tem caso" indica cliente em fase de investigação, possivelmente qualificado, mas requer avaliação inicial pré-contrato. E há um quarto perfil que aparece com menos frequência mas é importante reconhecer: o cliente que responde "quero que ele pague pelo que fez". Esse cliente está buscando vingança, e o sistema judicial não tem como entregar isso. É recusa técnica, não rejeição moral. Indicar terapia, conversa familiar, ou simplesmente esclarecer que a advocacia não opera nessa moeda.
Pergunta 2. O que você tem documentado em mãos?
A pergunta filtra por preparo. Cliente preparado traz pasta. Cliente despreparado traz lembrança. A diferença muda o cronograma do caso em meses.
O cliente que chega com certidão de casamento, escrituras, IR dos últimos cinco anos, extratos bancários organizados, acelera o caso em torno de dois meses em relação ao despreparado. O cliente que chega só com a certidão de casamento e diz "o resto eu pego" pode acelerar ou não, depende da capacidade real de execução. O cliente que diz "não tenho nada, mas eu posso pegar" precisa ser observado nas próximas duas semanas: se cumpre o que prometeu, segue. Se não cumpre, o caso vai arrastar seis a doze meses, ou inviabilizar.
O preparo documental é também sinal sobre a postura do cliente em relação ao caso. Quem trouxe pasta organizada, em geral, vai cumprir as outras tarefas que serão pedidas ao longo do processo. Quem trouxe apenas a memória, em geral, vai depender mais do escritório, e isso precisa ser dimensionado no honorário e no cronograma.
Pergunta 3. O ex (ou herdeiros) sabe que você está aqui?
A pergunta filtra por contexto relacional. O caso muda significativamente conforme a parte contrária já saiba ou não da intenção do cliente.
Quando o ex já sabe e há conversa aberta sobre o divórcio, o caso está em fase aberta. A estratégia pode ser de acordo extrajudicial ou litigioso, mas opera sem surpresa. Quando o ex desconfia mas ainda não foi confirmado, o caso está em fase de preparação, e o tempo vira variável crítica: documento pode sumir, transferência patrimonial pode ocorrer, conta pode ser fechada. Quando o ex não sabe ainda, o caso está em fase de planejamento. A coleta documental precisa ser acelerada antes de qualquer movimento perceptível pela outra parte. Isso é especialmente crítico em casos com patrimônio empresarial, onde alteração societária pode acontecer em prazo curto.
Em inventário, a pergunta se traduz para os outros herdeiros. Saber se eles sabem da intenção do cliente muda a dinâmica de citação, de partilha e, em alguns casos, de sobrepartilha futura.
Pergunta 4. Existe patrimônio relevante envolvido?
A pergunta filtra por escala. Caso de partilha de Volkswagen Gol 2008 não é o mesmo caso de partilha de empresa de R$ 8 milhões. O método é diferente, o honorário é diferente, e o cronograma é diferente.
"Praticamente nada" indica baixa complexidade, triagem rápida, custo do método reduzido, indicação clara para extrajudicial se houver acordo. "Um imóvel e o carro" indica caso médio, método padrão, verificar regime de bens, datas de aquisição, financiamento pendente. "Imóvel, empresa, aplicações" indica média a alta complexidade, método integral, perícia provável. "Muita coisa, ele é empresário" indica alta complexidade. Investigação patrimonial obrigatória, indicar perito antes da petição. "Ele tem uma empresa, mas eu não sei muito" indica alta complexidade combinada com alta opacidade. Triagem cuidadosa, e possivelmente caso para perito antes mesmo da segunda reunião.
A opacidade, aliás, é frequentemente subestimada. Cliente que diz "ele tem uma empresa mas eu não sei muito" está descrevendo um cenário de risco patrimonial elevado. Não saber é parte do problema, não atenuante dele.
Pergunta 5. O que você desconfia que ele esconde?
A pergunta é a que mais varia em valor entre as cinco. Cliente com desconfiança específica, com elemento concreto (data, valor estimado, nome de terceiro, fato observado), traz hipótese de partida. Cliente sem desconfiança específica está em terreno limpo, ou em negação.
"Ele tem uma conta no Uruguai, que eu sei que existe mas nunca vi" é desconfiança específica forte. Hipótese clara, com elemento de testabilidade. Coleta documental dirigida em dias. "Ele ficou esquisito em 2019, mudou o ritmo dos pagamentos" é desconfiança contextual, hipótese mais frágil, mas vale investigar. "Ele é simples, acho que não esconde nada" é cliente em negação ou em desconfiança não-formada. Investigar mesmo assim, com leveza, sem alarmar. "Nem sei o que esperar" é cliente em fase exploratória, e toda investigação é exploratória.
Cliente que oferece hipótese específica reduz o cronograma do caso em três a seis meses, porque entrega ao advogado a primeira direção da pesquisa. A maioria dos casos de bem oculto que recuperei começou na resposta da pergunta 5. Quem se aprofunda nessa lógica encontra no artigo sobre o inventário que escondia uma empresa exatamente esse padrão em operação.
O que cada resposta revela, em síntese
As cinco respostas, combinadas, produzem o perfil do caso. Alguns padrões aparecem com regularidade.
Cliente preparado, com objeto claro, em fase aberta, baixa complexidade e hipótese clara é o perfil ideal: aceito imediatamente, fechamento em dois a quatro meses. Cliente claro, parcialmente preparado, em fase de planejamento, alta complexidade patrimonial e com hipótese específica é o perfil alto valor e alta pressa: aceito com prioridade, fechamento em seis a vinte e quatro meses. Cliente ambíguo, despreparado, sem hipótese, baixa complexidade, é caso de baixa prioridade: vale orientação pré-contrato, mas pode não fechar. Cliente em busca de vingança, qualquer que seja a outra resposta, é recusado.
A advogada que conduz a triagem com prática identifica o perfil predominante ainda na primeira reunião. Pode comunicar diagnóstico inicial ao cliente em transparência: "pelo que você me disse, esse caso parece se encaixar no perfil X, vai exigir Y meses, custar Z em honorário base, e ter as seguintes prioridades de coleta documental". Cliente que se identifica com o diagnóstico prossegue. Cliente que se desconforta talvez precise reconsiderar se quer prosseguir. Em qualquer dos casos, o filtro acontece em transparência, não em arbítrio.
Quando o cliente passa e quando não passa
"Passar" na triagem não é mérito. É indicação técnica de que existe caso jurídico viável, com prazo, prova, fundamento e patrimônio em jogo. "Não passar" não é demérito. É indicação de que aquela demanda específica precisa de outro tipo de atendimento, e não da advocacia contenciosa.
Cliente passa quando: tem objeto definido, mesmo que ainda precise refinar; tem documentação mínima ou compromisso real de produzir; está dentro de prazo decadencial ou prescricional aplicável; tem patrimônio relevante a partilhar ou recuperar, ou direito não-patrimonial juridicamente viável; e traz hipótese, mesmo que frágil, sobre o que pode estar oculto.
Cliente não passa quando: busca vingança em vez de reparação; não tem documentação nem condição real de produzi-la; está fora de prazo; não há patrimônio nem direito juridicamente identificável; ou apresenta padrão de instabilidade na narrativa que indica desistência provável no meio do processo.
Por que filtrar é proteger
Filtrar não é rejeitar. É proteger em três direções.
Proteção do cliente sem caso. O cliente que não tem caso jurídico viável, ao ser orientado para outra direção (Defensoria Pública, mediação, conversa familiar, ou simplesmente reconsiderar a expectativa), economiza dinheiro, tempo e esperança. A frase "não tenho caso para você" é, paradoxalmente, ato de cuidado. É melhor ouvir isso na primeira reunião que três anos depois, no fim de processo perdido.
Proteção do cliente qualificado. A advogada que aceita volume sem filtro tem atenção dispersa. Não consegue atender o qualificado com qualidade. O qualificado paga o preço, em forma de petição padronizada, coleta documental rudimentar, e estratégia mediana. A filtragem libera tempo e atenção para quem precisa.
Proteção do escritório. A reputação de qualquer escritório é construída sobre os casos bem-sucedidos. Cada caso aceito que não deveria ter sido é caso que vai virar reclamação, processo de revisão ou cliente insatisfeito. O escritório que filtra preserva reputação. O que aceita tudo erode.
Quem filtra protege. Quem aceita tudo expõe.
Onde aplicar: três pontos operacionais
A triagem em cinco minutos pode ser conduzida em três momentos. Cada um tem custo e benefício.
Por telefone, antes da primeira reunião: cinco minutos da atendente ou da própria advogada. Filtra clientes não-qualificados antes que ocupem espaço da agenda. Risco de perder cliente borderline que ficaria à vontade só presencialmente. Recomendado para escritórios com agenda lotada.
Nos primeiros cinco minutos da reunião presencial: o tempo já está acontecendo. Benefício de clareza imediata para os dois lados, com possibilidade de orientação ainda na reunião. Risco de o cliente achar a advogada fria. Recomendado para escritórios em fase de calibragem.
Por formulário, antes da primeira reunião: requer implementação. Benefício de o cliente chegar à reunião com diagnóstico pré-existente. Risco de preenchimento parcial. Recomendado para escritórios maduros, com fluxo estabelecido.
A operacionalização ideal combina os três. Formulário online enviado com a confirmação da agenda. Reconferência por telefone se necessário. Validação nos primeiros cinco minutos do presencial. Em qualquer das três formas, a triagem é o ato técnico mais importante do método.
Box de aplicação prática
Checklist da triagem em 5 minutos
- Objeto: "O que você está buscando exatamente?" — saída do contexto para o objeto.
- Preparo: "O que você tem documentado em mãos?" — pasta versus lembrança.
- Contexto relacional: "O ex ou herdeiros sabem que você está aqui?" — fase aberta, de preparação ou de planejamento.
- Escala: "Existe patrimônio relevante envolvido?" — baixa, média ou alta complexidade. Opacidade é parte do problema.
- Hipótese: "O que você desconfia que ele esconde?" — desconfiança específica, contextual ou ausente.
Cinco perguntas, em sequência fixa, antes de qualquer contrato. O diagnóstico sai em cinco minutos. O cronograma do caso, em quinze.
Para fechar
A primeira reunião é o ato técnico mais importante de toda a advocacia de Família. É o momento em que se decide se o caso é viável, qual subcategoria ele ocupa, qual checklist documental será ativado, e qual cronograma fará sentido. Quem conduz a primeira reunião por hábito, sem método, está terceirizando a decisão mais importante do escritório para a impressão subjetiva do momento. Quem conduz por método protege cliente, advogada e reputação ao mesmo tempo.
Se você quer entender como o método é aplicado em casos reais, leia o relato sobre o inventário que escondia uma empresa e o caso sobre o divórcio amigável que escondia R$ 380 mil em aplicação. Ambos começaram exatamente na resposta da pergunta 5 da triagem.
O livro Triagem Antes do Litígio, com o método completo, está em fase final de preparação. Inscreva-se para receber primeiro.
